quarta-feira, 25 de abril de 2012

A história do quadrinho de terror no Brasil


O Brasil possui uma grande tradição no futebol, ele é a nossa maior paixão, contudo, assim como nossa língua e muitos hábitos que possuímos, não é uma manifestação cultural originalmente brasileira é mais um dos estrangeirismos que adaptamos a nossos costumes. Assim como o nosso esporte nacional, um tipo de quadrinho bem brasileiro possui ligação com o exterior, o quadrinho de terror que inundou as bancas por décadas e deu reconhecimento a diversos artistas. O terror é um dos gêneros de maior aceitação entre os leitores brasileiros, infelizmente acabou não tendo a longevidade que merecia, estando num país onde o analfabetismo é enorme e o consumo de revistas é muito pequeno. O brasileiro é um povo místico, se não acredita ande pelo interior ou converse com pessoas mais velhas, terão alguma história macabra para nos contar, em nosso imaginário temos a cuca, o saci pererê, a mula sem cabeça, os fogos fátuos, chupa-cabras, etês, o curupira, entre dezenas de histórias ricas em detalhes e carregadas de misticismo, quem nunca teve um conhecido que contava sobre ver fantasmas quando novo, ou dos espíritos que rondam casas abandonadas e apartamentos vazios, o brasileiro é apaixonado pelo sobrenatural perdendo para poucos povos.

Resenha: "Ynari – A menina das cinco tranças", de Ndalu de Almeida Ondjaki


Elis Parizotto Seidler*

“Espremer um sonho”, esse é o segredo em formato de prefácio sussurrado pelo escritor angolano Ondjaki, que usa seu talento de poeta e a oralidade do português de Angola, ao anunciar a obra Ynari – a menina das cinco tranças, cujo título e subtítulo remetem imediatamente a uma simbologia envolta pelo nome da protagonista em kimbundu, o número cinco e a palavra trança. Para enveredarmo-nos por uma das possibilidades de leitura dessa obra: a literatura e a guerra – simbolizadas por uma menina, um homem pequeno e os mais-velhos, é importante frisar que a data de edição de Ynari, na Angola, é bastante significativa: 2002, ano em que a paz é retomada nesse país, após quase trinta anos de guerra civil.  
Ynari, obra escolhida para o Projeto Livro do Mês – 2012, é um livro destinado a um público aparentemente específico, o das crianças, para todas elas, como diz o autor na dedicatória, mas principalmente para Angola, como se informasse a um leitor mais desatento, não apenas da categoria infantil, mas também às crianças adultas que emprestam muitos de seus sonhos para o autor. Sabemos que os sonhos em miniaturas também compõem as vidas adultas.
 Ynari tem muito a aprender, mas com a ajuda de suas cinco tranças, a menina vai dar aos povos as palavras que enfim lhes faltavam, mostrando que as crianças, com muita magia e ternura, podem mudar as aldeias e as ideias e acabar com todas as guerras, com uma simples palavra: a amizade.


*Monitora do Mundo da Leitura e acadêmica do curso de Letras na Universidade de Passo Fundo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Coração denunciador


Edgar Allan Poe

É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou. Mais que os outros estava aguçado o sentido da audição. Ouvi todas as coisas no céu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como então posso estar louco? Preste atenção! E observe com que sanidade, com que calma, posso lhe contar toda a história.

É impossível saber como a ideia penetrou pela primeira vez no meu cérebro, mas, uma vez concebida, ela me atormentou dia e noite. Objetivo não havia. Paixão não havia. Eu gostava do velho. Ele nunca me fez mal. Ele nunca me insultou. Seu ouro eu não desejava. Acho que era seu olho! É, era isso! Um de seus olhos parecia o de um abutre - um olho azul claro coberto por um véu. Sempre que caía sobre mim o meu sangue gelava, e então pouco a pouco, bem devagar, tomei a decisão de tirar a vida do velho, e com isso me livrar do olho, para sempre.

Agora esse é o ponto. O senhor acha que sou louco. Homens loucos de nada sabem. Mas deveria ter-me visto. Deveria ter visto com que sensatez eu agi — com que precaução —, com que prudência, com que dissimulação, pus mãos à obra!

Eu sei, mas não devia

Crônica de Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.